Sueño

SUEÑO

Blog do processo de montagem Sueño a partir da obra A Vida é Sonho, de Calderón de La Barca, pesquisada pela Malta Teatral Camaleão Boca de Dragão

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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Impressões quanto à inculturação e aculturação

Em nosso fazer teatral no ocidente somos tentados a construir nossa própria técnica, talvez pela forma como somos educados ou nos ensinam a pensar, logo queremos alçar vôos sem conhecer a fundo a trajetória histórica de outros que já percorreram esse caminho.

Daí, sem a tradição do mestre - digo mestre na força arquetípica em que possui e é respeitado pelos povos do oriente e tantos outros da antiguidade - nós nos empenhamos mais que depressa numa caminhada erma pela técnica da inculturação.

Os poucos atores que entendem isso, entram numa estrada longa, erma e seca, onde precisam auto-descobrir-se (corpo e mente). Consciente dessa estrada, devido a alguns grandes mestres que tive em minha formação técnica, sempre acreditei que o ator primeiramente é um atleta. Atleta no sentido físico e afetivo como defendia Artaud.

Na Malta Teatral desenvolvo já a cerca de 1 ano, o exercício Jardim do Rei (Barba), que consiste em criarmos imagens de um jardim do Rei mais poderoso que você possa imaginar. Essa imagem deve ser forte o bastante para gerar impulsos e motivar uma relação espacial com essas imagens.

Define-se as imagens e começa-se a repetir os movimentos até que essas imagens tornem-se uma dança pessoal, pois é a sua técnica de inculturação. Após isto, começa-se a trabalhar princípios pré-expressivos (Barba). Treinei até então nesse Jardim do Rei os princípios de equilíbrio, tensão e início ritmo.

Interessante notar que nessa dança pessoal todos os movimentos partem de mim, tudo o que sou até o momento pode ser envolvido, desde movimentos apreendidos em ballet ou em break, fragmentos de figuras do Decroux até movimentos cotidianos estilizados. Tudo se mistura e torna-se ímpar.

A cada movimento do Jardim do Rei que se desenrola como se fosse uma linha contínua no espaço, saindo do meu corpo e se perdendo no tempo, sinto a memória corporal e psíquica "gritando".
Uma memória levando à outra e aumentado a diversidade da minha dança em um transe entre a imagética virtual e física.

Às vezes, um movimento visto num espetáculo de dança, um sonho que tive ou um andar incomum observado na rua torna-se material para minha dança pessoal. As matrizes crescem, meu repertório aumenta e algo novo pode ser criado quando aquilo parecia estagnar.

Neste ponto volto a questão do mestre, o Adriano inseriu no treinamento uma técnica de aculturação, a Comédia Dell'Arte, que aprendeu com Antônio Fava.

Nós treinamos a Comédia Dell'Arte não com intenções psíquicas da persona, mas como partitura corporal, isto é,
treinamento pré-expressivo. Aprendemos a partitura de uma persona pela repetição e racionalização do movimento até que se torne orgânico, ou seja, mestre e aprendiz.

O mestre é quem corrige os movimentos de seu aprendiz com ação, assim como é no ballet, na mímica clássica ou no Kathakali - são técnicas passadas de geração em geração; e é o aprendiz quem precisa esvaziar-se de si mesmo para aprender essa técnica (reproduzir), dominá-la (decodificar) e somente então transformá-la (codificar).

Essa mistura de treinamento aculturado e incultura modifica o ator e o transforma em algo incandescente (dilatado em seu psicofísico). Esse ator relaciono a um corpo que sobre baixa temperatura (pouca energia) ocupa menos espaço no ambiente e sobre alta temperatura (muita energia) expandi-se. O ator atleta tem esse diferencial, treina acordar o "leão", irritá-lo, domá-lo e devolvê-lo ao sono quando quer.

por Rafa Bermudes

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